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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

CINCO CONSEQUÊNCIAS FILOSÓFICAS DA CRISE

"A atual crise econômica não se limita a uma questão de estatísticas, nem se reduz ao devastador impacto social do desemprego e da incerteza.

Com a debacle mundial, fez água uma particular visão do mundo que pareceu dominante e irreversível com a queda do muro de Berlim.

Essa visão se cristalizou em algumas frases famosas como o "fim da história" de Francis Fukuyama, "a sociedade não existe" da primeira ministra britânica Margaret Thatcher ou os 10 mandamentos do consenso de Washington que impulsionavam a liberalização-desregulamentação-privatização global.

O novo dogma após a derrota do comunismo era todo o poder ao setor privado, o mercado como medida de racionalidade econômica e utopia, e o individualismo mais desbragado como princípio ético ordenador.

Com a debacle econômica essa visão do mundo também entrou em crise.

A BBC mundo identificou cinco consequências filosóficas.

1. Filosofia político-econômica

A lei da oferta e da demanda exerceu um reinado absoluto na formulação de política econômica das últimas três décadas.

Segundo o pensamento clássico, a oferta e a demanda funcionam como um perfeito sistema homeostático (auto-regulado) que tende ao equilíbrio perfeito e conta com um regulador infalível: o preço.

A muita demanda e pouca oferta de um produto, o preço sobe até alcançar a soma que o mercado pode pagar por esse bem.

Inversamente ─ pouca demanda, muita oferta ─, o preço se achata até que alguém o adquira convencido de que não o vai encontrar mais barato.

Nem o prêmio nobel outorgado ao economista Joseph Stiglitz por sua investigação sobre o papel que a informação cumpria nesse mercado ─ a informação com que contam os milhares ou milhões de integrantes de um mercado particular não era perfeita e, portanto, o preço refletia outras variáveis ─ destruiu essa confiança cega nesse funcionamento homeostático.

Com essa premissa teórica, o que melhor do que desregular tudo e deixar que o mercado se encarregue dos equilíbrios econômico-sociais?

Mas, ao que parece, a realidade econômica está cheia de fenômenos imprevisíveis

Nas chamadas borbulhas, como a imobiliária das hipotecas "sub-prime" que desatou a atual crise, onde está o mecanismo auto-regulador do mercado?

A alta dos preços das propriedades imoboliárias refletia sempre a situação da demanda e da oferta?

A conclusão mais óbvia é que demanda, oferta e preço formam parte de um mecanismo econômico-social infinitamente más complexo que essa crassa simplificação que se aplicou durante tanto tempo.

2. Crise do racionalismo de mercado

As perguntas precedentes põem no entredito uma premissa fundamental da lei da demanda e da oferta: o racionalismo dos mercados.

O ser humano vem buscando a racionalidade em matéria econômica e filosófica faz muito tempo.

A planificação econômica que fez furor depois da crise de 29 e do pós-guerra buscou sintonizar a produção e o consumo com as necessidades de una sociedade.

Com a derrubada do comunismo, o mercado se impôs como única lógica global.

Segundo essa ideologia, o mercado era racional e eficiente para destinar recursos, tanto no âmbito laboral, como produtivo e financeiro.

A debacle mostrou que o mercado tem a mesma dose de irracionalidade, capricho, imprevisibilidade que qualquer indivíduo ou grupo humano.

O que nos coloca um problema inquietante.

Se os mercados ou o Estado não são a base de um funcionamento sócio-econômico racional, isso quer dizer que estamos à mercê dos elementos?

3. Consequência axiológica: teoria dos valores

Esse aparente desamparo de nossa práxis econômico-social se complementa com uma crise de fundamentos éticos.

Desde os 80 e em particular com a queda do muro de Berlim se impôs um ultra individualismo que se baseava numa teoria do egoísmo como valor organizador ideal de uma sociedade.

A teoria retroage a Adam Smith e sua consideração de que a melhor maneira de comportar-se socialmente ─ de beneficiar o conjunto ─ era que cada um perseguisse seu próprio interesse, já que a "mão invisível do mercado" acertaria todos os desacertos que se produzissem pelo caminho.

Adam Smith jamais negou a ação social, nem o labor do Estado, nem a presença dos valores (a justiça era fundamental em seu sistema), como se interpretou com ignorância ou má fé tempos depois.

Mas um de sus seguidores, Frederich Von Hajeck, e seu discípulo Milton Friedman radicalizaram suas ideias.

Ayn Rand, uma romancista e filósofa que começou a ser conhecida nos 40, deu voo filosófico e subjetivo a essa viragem, postulando que o egoísmo ─ a busca cega do próprio benefício ─ era o fundamento da civilização.

Entre seus discípulos estava Alan Greenspan, que anos depois estaria à frente da Reserva Federal dos Estados Unidos, de 1987 a 2006, vale dizer, durante o período da mais completa desregulamentação financeira.

O próprio Greenspan reconheceu diante do Congresso que seu edifício teórico tinha falhas.

"Estou assombrado. Durante 40 anos ou mais as provas apontavam que esse sistema estava funcionando excepcionalmente bem", disse Greenspan.

O consenso hoje é que a busca desenfreada do próprio benefício foi determinante nas duas megacrises mundiais dos últimos 80 anos ─ a grande depressão e esta crise.

Seria necessária alguma outra prova do impacto devastador dessas duas debacles?

4. Azar, causalidade, incerteza

Uma premissa que vem do iluminismo e que durante dois séculos nos sustentou com sua fé foi a possibilidade de correspondência entre o que dizíamos e a realidade.

Essa correspondência era o fundamento do conhecimento científico e da previsibilidade de fenômenos e tendências.

Desde princípios do século XX, houve numerosos questionamentos a essa premissa (de Ludwig Wittengstein até o princípio da incerteza do físico Werner Heisenberg e o radical relativismo dos pós-modernos), mas uma fé básica em seus fundamentos sobreviveu em muitos campos, entre eles a economia.

Dois conhecidos financistas, bem imersos nos debates da filosofia, creem que essa crise exige voltar a pensar as coisas.

George Soros estudou filosofía na London School of Economcis com Karl Popper e acaba de publicar suas conclusões em "The Crash of 2008" que leva o sugestivo subtítulo de "O novo paradigma dos mercados financeiros".

Segundo Soros, pretender que os mercados financeiros reflitam a marcha da economia real e se manejem pela oferta e pela demanda é desconhecer o papel fundamental que cumpre a subjetividade e um processo que chama reflexividade.

O valor do ouro ou da propriedade não sobe porque reflete como um espelho uma realidade subjacente de demanda e oferta, senão porque os operadores do mercado por sua própria interação influem nesse preço como sucede nas borbulhas financeiras que se armam em torno de um produto ou do comportamento em manada (todos querem comprar ou vender um produto ao mesmo tempo)

Outro investidor com iguais inclinações filosóficas, Nassim Nicholas Taleb, publicou em 2007 "O cisne negro", no qual diz que só podemos prever o óbvio e jamais a mudança.

Taleb põe o exemplo do cisne negro. Durante muito tempo se pensou que todos os cisnes eram brancos porque a observação acostumara o homem europeu a que assim eram as coisas.

Até que na Austrália apareceu um cisne negro e foi preciso revisar tudo.

Segundo Taleb, ninguém previu nenhuma mudança sísmica na história humana.

Desde o advento do cristianismo até a queda do comunismo e os atentados do 11 de setembro, sucederam sem que ninguém os antecipara, ainda que a posteriori se construiu uma narrativa explicativa cheia de causas que tornavam inevitáveis esses fenômenos.

Se não podemos antecipar o mais importante, o que sabemos?

5. Consequência ontológica

Depois de tudo o que foi dito, cabe formular-se a pergunta central da ontologia, o ramo da filosofia voltado para o conhecimento sobre os entes.

Nesse universo econômico-social: o que existe?, o que é o real?

No século XVII, Descartes teve que retrotrair sobre o seu próprio pensamento para alcançar uma certeza subjetiva acerca do que existia efetivamente: penso, logo existo.

O pobre Descartes não viveu nesse mundo quase irreal das finanças do século XXI.

Se é relativamente fácil fundamentar a realidade da produção e do consumo, é muito mais complexo compreender o status existencial de instrumentos financeiros como os famosos ativos tóxicos (dívidas praticamente incobráveis) ou os derivados (contratos de compra futura apostando no valor que terá esse produto ou ativo: matéria prima, hipotecas, moeda, etc.), fundamentais para compreender a crise que vivemos.

Em 2007, calculava-se que o PIB mundial (todos os bens e serviços que o mundo produziu) era de 63 trilhões.

Nesse mesmo ano se estimava que o mercado dos derivados era de 596 trilhões ─ quase 10 vezes mais do que o que produzia o planeta.

O valor do PIB se refere a algo tangível.

Que realidade têm essas gigantescas apostas a preços futuros que são os derivados ou as borbulhas?

Essa pergunta não se fazem só os neófitos em matéria econômica.

"Em termos filosóficos os economistas são materialistas para os quais as bolsas de trigo são muito mais reais que as carteiras de bônus", explicou a "The Economist" Perry Mehrling do Barnard College, Columbia University.

E, sem embargo, a economia tem uma realidade muito mais elusiva como o demonstra o funcionamento mesmo do dinheiro.

"O dinheiro não é algo completamente real. O dinheiro é a promessa de que alguém vai poder comprar algo. Igual que o dinheiro que alguém tem depositado no banco. Alguém tem uma promessa de que o banco vai pagar. Se o banco quebra, a promessa deixa de existir", explicou à BBC Mundo Jon Danielsson da London School of Economics.

Se se multiplica isso pelos bilhões de transações diárias que se fazem com dinheiro constante ou com bônus, títulos e outras volatilidades do mundo financeiro, se vê quantas promessas se quebraram."

(Fonte: BBC, Prensa Latina, Tradução: Sergio Granja - Por e-mail da Fundação Lauro Campos)

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